Como já disse antes, o meu pai tem Alzheimer. Durante a noite sou enfermeiro de serviço.
No entanto, em Setembro de 2024, tive uma crise convulsiva, parti uma vértebra. fui operado... fisioterapia (estou a simplificar bastante, mas quem acompanha este blog tem um cenário mais realista da coisa)... Fiquei com dores que até hoje andam por aqui.
Há dias em que sou um perfeito inútil.
Felizmente tenho irmãos.
O meu pai, merecia melhor. Passou a vida a trabalhar. A maioria do tempo como artesão de vimes. Tentou ser taxista por alguns anos mas não se deu com aquilo, e voltou aos vimes.
Eu próprio trabalhei em vimes por algum tempo.
Regra geral nas férias escolares.
Alzheimer não é uma doença simpática. Ás vezes fica confuso, outras agressivo. Chega a chamar-me tudo e mais alguma coisa, nem me deixa mudar-lhe fraldas.
Tenho noção que não faz por mal, mas com dores... a minha paciência, e mesmo estado de humor também não são os melhores.
Tenho ali coisas que gostaria de fazer, mas, não há cabeça.
Hoje em dia a inteligência artificial e muitas outras tecnologias ajudam.
Ter a inteligência artificial a converter material meu em LaTeX não é o mais impressionante que há, mas é impressionante, e mostrou-me novas possibilidades.
Hoje tive uma minha sobrinha pedir-me explicações. Bem, se eu estivesse em condições de dar explicações... estava a trabalhar. Mas não estou. Fiquei de pensar numa solução realista.
Hoje, ambos os meus pais armaram-me uma e estou semi-dispensado "do serviço". Semi, porque... não posso adormecer, não vá o meu pai "fazer turismo nocturno".
Não, não é sonambulismo.
Não ter noção das coisas... é tramado. Assusta-me a ideia de ser atingido por aquela doença.
Já passei por muitas coisas. Nada se compara àquilo.
Compreendo a agressividade. O homem não tem noção do estado em que está e não compreende, por exemplo as injecções de insulina. Ás vezes não aceita a medicação e cospe-a.
Todos os dias, quando vou ver a glicémia, pergunta-me o que estou a fazer. E eu vejo várias vezes (tem um sensor). Ajuda.me a ter ideia se fez assaltos à cozinha, se tomou medicação, quando fez as refeições.
Ás vezes vê-me a fazer cálculos, a escrever, a desenhar... e pergunta-me o que ando a fazer.
Ás vezes apetece responder "estou a tentar não ir para debaixo de uma ponte"...
Com a minha idade, o meu pai tinha um filho universitário: eu....
"Filho universitário..."
Se eu soubesse o que sei hoje.
Enfim, a vida não vem com livro de instruções.
Ás vezes as dores estão tão más que o que eu faço é jogar qualquer coisa. Depois, num dia com tempo e pachorra, edito o vídeo e ponho online.
Claro que muitas vezes tenho de largar o jogo a meio. O homem acorda... Não estou distraído. Apesar das dores.
Mas isto tem um preço. Há dias em que passo praticamente o dia todo a dormir,
Felizmente... tenho irmãos.
Só que também não estou interessado em ser um peso para ninguém.
Tenho de arranjar um rumo dentro do possível, e aceitável.
E o meu pai... merece melhor.

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